Seca e chuvas intensas castigam populações de forma desigual  na região metropolitana

Por Raquel Rolnik e Fabio Magrani

As mudanças climáticas na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) manifestam-se não apenas nos fenômenos que classicamente vêm à mente, como enchentes e desmoronamentos, mas também em um fenômeno diametralmente oposto que é igualmente destrutivo: o aumento dos períodos de seca. Essa oscilação entre extremos de chuvas intensas e seca absoluta tem exposto a suscetibilidade das cidades, atingindo de forma desigual suas populações, com as consequências se acumulando desproporcionalmente sobre aqueles que já têm piores condições de moradia.

A Intensificação dos extremos hídricos

Precipitação anual por trienios para a estação do Instituto de Astronomia e Geofísica da USP entre 1933 e 2024
Marron: 10 trienios mais secos
Azul escuro: 10 trienios mais chuvosos

 

Embora a percepção popular seja de que “está caindo muito mais chuva”, a análise do fenômeno meteorológico revela que a mudança crucial  está  na concentração dos períodos de chuva. O que se observa é uma densidade maior, resultando em mais chuva em menos tempo, distribuidas desigualmente pela cidade. Essa alta concentração faz com que a água chegue em grandes volumes de uma vez só, ultrapassando a capacidade de absorção dos vertedouros e do solo. Tais eventos hidrológicos extremos geram inundações, enxurradas e alagamentos  que apesar de parecerem a mesma coisa são fenômenos diferentes, além de deslizamentos em algumas áreas.

Tendência de máximos diários de precipitação em 1 hora para a estação do IAG-USP

 

Em contraste, a mudança climática também trouxe o agravamento da seca na cidade. Este tem sido exatamente o cenário mais recente  vivido, em São Paulo, quando a região enfrenta uma crise de abastecimento de água. Os reservatórios que fornecem água à cidade, atingiram níveis extremamente baixos e preocupantes.

Frequência de meses secos com precipitação menor que 8 mm, agrupados por 5 anos para a estação do IAG-USP

 

Escassez, pressão baixa e o preço da economia

Como resposta a  crise de abastecimento hídrico  a concessionária  de água e esgoto da metrópole  assumiu  medidas de gestão que, infelizmente, recaem sobre os moradores. Uma das medidas é a redução da pressão da água distribuída adotada para economizar e evitar perdas no sistema. Além disso,  a concessionária aumenta o número de horas em que o abastecimento é interrompido. A redução da pressão, contudo, impede que algumas regiões, especialmente em áreas mais altas, ou reservatórios situados no alto de edificações, consigam encher suas caixas d’água. Essa situação resulta em várias ocorrências de falta d’água. Além disso há relatos que em em áreas muito baixas, a baixa pressão fez com que o esgoto voltasse, contaminando a água tratada. É importante ressaltar que a medida de redução da pressão é uma resposta imediata a um problema estrutural, que são as perdas do sistema, que no caso de São Paulo chegam a 30% de acordo com a própria SABESP . Trata-se de vazamentos e ligações clandestinas, uma situação  que se apresenta há décadas e que representa no cotidiano um enorme desperdício.

Vulnerabilidade social e acúmulo de riscos

O impacto desses fenômenos (como enchentes,  deslizamentos  ou falta d’água) é absolutamente diferencial. Os riscos associados às mudanças climáticas – como as consequências adversas sobre a saúde, bens, serviços e a própria vida – não são sentidos por todos da mesma maneira.

A vulnerabilidade social refere-se ao potencial de danos, condicionado pela suscetibilidade a eventos adversos. Na RMSP, as situações de risco se acumulam na população de menor renda:

  1. É a mais vulnerável.
  2. Sofrem com menor infraestrutura de abastecimento de água.
  3. Estão menos protegidos de fenômenos como enchentes, enxurradas, alagamentos e deslizamentos.

Em essência, aqueles com infraestrutura menos sofisticada de abastecimento de água e menor proteção estrutural contra inundações e desmoronamentos são exatamente os que sofrerão as piores consequências dos extremos climáticos.

Portanto, os efeitos das mudanças climáticas na RMSP não advem apenas de uma questão de precipitação e temperatura, mas  fundamentalmente de condições sociais preexistentes, extremamente desiguais, e das formas históricas de perpetuá-las. O risco hidrometeorológico (como inundações, seca e chuvas intensas) e geológico (movimento de massa) estão interligados. Maximizando de forma cruel a propensão da população mais vulnerável ser adversamente afetada e compromentendo a sua capacidade de resiliência. É um problema de mudanças climáticas? Sim, mas sobretudo é um problema ambiental, de moradia, gestão e da forma perversa como resolvemos este problema em nossas cidades.

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Este texto apresenta resultados preliminares da pesquisa coletiva conduzida no âmbito do projeto temático “Observatório de Remoções: dimensões interdisciplinares do risco em tempos de mudanças climáticas e crise habitacional”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo FAPESP Nº 2023/12851-7 e 2025/02035-3).

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Raquel Rolnik, professora na FAUUSP e coordenadora do LabCidade.

Fabio Magrani, pos doutorando pelo IME-USP.