
Por Raquel Rolnik, Rafaela Teixeira Paula, Ulises Magdalena e Fábio Magrani
O que há de comum entre os eventos de precipitação registrados em 2011 e 2022 na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2022 na Região Metropolitana do Recife, em 2023 no Litoral Norte de São Paulo, em 2024 no estado do Rio Grande do Sul e, agora, em 2026, na Zona da Mata Mineira? De antemão, todas as regiões mencionadas registraram precipitação intensa concentrada, cada vez mais, em curtos intervalos de tempo. A maioria caracteriza-se por regiões de relevo acentuado ou por superfícies situadas abaixo do nível do mar, além de apresentarem elevadas taxas de alteração do uso e cobertura da terra.
Para compreender por que esses eventos são classificados como intensos, é necessário considerar a forma de medição da precipitação. O volume de chuva é expresso em milímetros, unidade que corresponde à altura de uma lâmina de água sobre uma superfície onde 1 litro equivale a 1 mm em 1 metro quadrado.
Os eventos destacados foram marcados por volumes excepcionais de chuva, concentrados em curtos intervalos de tempo (Figura 1), com acumulados de 300 mm em seis dias e 250 mm em três horas na Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011 e 2022 respectivamente; também em 2022 na região metropolitana de Recife foram registrados 551 mm em cinco dias; no ano seguinte, 2023, 683 mm em 15 horas no Litoral Norte de São Paulo; 500 mm em 72 horas no Rio Grande do Sul em 2024 e recentemente, fevereiro de 2026, 325 mm em dois dias em Juiz de Fora e 170 mm em 3h30 em Ubá.
Desse modo, os valores observados de precipitação indicam que volumes expressivos de água foram acumulados em e curtos períodos, o que caracteriza a alta intensidade desses episódios. A figura abaixo, considera em cada evento quantos galões de água de 5L seriam despejados em uma área de 1m². Apesar de não se distribuir uniformemente por toda a cidade ou região, pode-se multiplicar esta quantidade de galões (e litros) pela área da cidade para se ter uma estimativa da magnitude desses eventos.

A previsibilidade dos eventos e a ausência de políticas
No contexto das mudanças climáticas, o que se observa para além da intensificação dos processos já conhecidos, é a recorrência sistemática de eventos extremos, que reconfiguram seu próprio status: deixam de ser exceções e tornam-se cotidianos. Se isso ocorre, o primeiro gargalo que se evidencia é que os desafios da gestão do risco de desastres associados a eventos naturais não decorrem somente da adoção de referenciais construídos a partir de eventos passados, insuficientes para responder à dinâmica atual, mas também ressalta a fragilidade histórica das políticas públicas de prevenção e adaptação, inexistentes ou insuficientes em diferentes etapas da gestão do risco, desde a preparação até a resposta, marcadas por sua descontinuidade, baixa capacidade de antecipação e limitada incorporação da gestão do risco ao planejamento ambiental e territorial.
Essa fragilidade pode ser observada em diferentes contextos recentes do território brasileiro, nos quais os desastres revelam o aumento da intensidade dos eventos meteorológicos, mas também a persistência da vulnerabilidade social e ausência de moradia adequada.
A ineficiência de planos de redução prévia do risco agravada pelos cortes orçamentários e dificuldade fiscais
Para além da reconfiguração climática, o que se observa é o enfraquecimento das políticas de prevenção a desastres, sejam eles de eventos naturais ou tecnológicos, em decorrência de medidas institucionais e bloqueios orçamentários que comprometeram a manutenção de programas voltados à atuação pré-desastres. No Rio Grande do Sul, o desastre observado na Região Metropolitana de Porto Alegre, demonstrou os efeitos da redução de recursos destinados à manutenção sistemática das comportas do sistema de proteção contra transbordamentos, conforme aponta o engenheiro ambiental Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH-UFRGS).
Mesmo quando há reconhecimento do risco, os instrumentos necessários para a sua redução tendem a ser descontinuados ou esvaziados por decisões institucionais e orçamentárias. Em Minas Gerais, por exemplo, de acordo com reportagem publicada no G1, a redução dos recursos destinados às ações de combate e resposta aos danos causados pelas chuvas, do montante de 135 milhões para 6 milhões, no estado como um todo, também comprometeu ações de prevenção de desastres.
Para além destes exemplos soma-se o risco fiscal de cada município, sua baixa capacidade em investir em adaptação climática, e capacidade de pagar as dívidas que já possui.
Para analisar esta questão, foram computados para as cinco regiões analisadas (Região Serrana RJ, Grande Recife PE, Litoral Norte SP, Estado do Rio Grande do Sul e Zona da Mata MG) as condições de fiscais da cada município através de dados do Capag 2025 (Capacidade de Pagamento, do Tesouro Nacional). De forma similar à metodologia utilizada pelo Observatório do Clima, os municípios com notas Capag C, D e E foram classificados como possuindo baixa capacidade de pagamento. Nesta análise, contudo, foi dado enfoque justamente nas regiões com recorrentes e significativos riscos aos desastres hidrometeorológicos.
Foram utilizados dados geoespaciais de suscetibilidade obtidos do CPRM (Serviço Geológico do Brasil, atualmente SGEO) e IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo) a fim de se mapear as áreas suscetíveis à inundações dentre as 5 regiões mapeadas, o que aumentaria a necessidade de investimentos e adaptação frente às mudanças climáticas.
A Região Serrana do Rio de Janeiro apresenta os piores índices, com 100% dos municípios nesta região com alta ou média suscetibilidade a inundações e 64% com baixa capacidade de pagamento. O Litoral Norte de São Paulo também apresenta todos os seus municípios em áreas suscetíveis à inundação, contudo somente 20% obtiveram notas C, D ou E no Capag, apresentando melhor capacidade financeira. Assim como a região do Grande Recife. Em contrapartida, a Zona da Mata, palco recente de desastres, apresenta mais da metade de seus municípios com baixa saúde financeira.

Apesar de programas federais como o AdaptaCidades e o Plano Clima, os programas encontram dificuldades em lidar diretamente com a redução de riscos de desastres, efetiva chegada de recursos aos municípios necessitados com dificuldades financeiras, e pouca previsão para adaptação dos municípios em tempos de aceleradas mudanças no clima.
Para além da precária situação fiscal dos municípios, decorrente de condições estruturais do pacto federativo além dos limites impostos em políticas de ajuste fiscal, chama atenção o quanto as ações de prevenção de desastres não estão articuladas ao planejamento urbano e muito menos à política habitacional. Essas dimensões permanecem historicamente negligenciadas, fragmentadas ou limitadas a iniciativas pontuais de baixa efetividade. Assim, a redução do risco segue subordinada a lógicas de excepcionalidade, quando, na verdade, precisaria ser princípio permanente de ordenamento territorial.
O pós-desastre ineficaz e a não-recuperação dos territórios
A atuação estatal tende a se concentrar no pós-desastre, por meio de respostas emergenciais voltadas sobretudo à contenção imediata dos danos, quando as medidas já não são capazes de reparar integralmente os danos materiais, sociais e as perdas humanas sofridas pelas famílias atingidas. Porém os efeitos do desastre ultrapassam o momento crítico e se prolongam no cotidiano dessas populações, uma vez que a mitigação posterior não é capaz de restituir os territórios, os vínculos e as condições de vida anteriormente existentes. E mais: sem um enfrentamento mais decisivo nas lógicas de ordenamento territorial que tendem a reproduzir situações de exposição ao risco, situações de grande exposição aos desastres tendem a se reproduzir.
Nesse sentido, a redução dos impactos associados às mudanças climáticas não pode se restringir a respostas reativas, uma vez que os desastres já se configuram como parte do cotidiano. Além disso, nas últimas décadas, ferramentas computacionais e modelagens vêm permitindo um melhor mapeamento de áreas suscetíveis à desastres, abrindo portas para direcionamentos financeiros, políticas públicas e reduzindo incertezas. Contudo, é necessário o estabelecimento de uma política habitacional prévia, orientada por critérios de resiliência e justiça territorial, capaz de incidir sobre as condições estruturais que (re)-produzem grande parte da vulnerabilidade social existente.
Financiamento
Este texto apresenta resultados preliminares do projeto temático “Observatório de Remoções: dimensões interdisciplinares do risco em tempos de mudanças climáticas e crise habitacional”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo FAPESP Nº 2023/12851-7 e 2025/02035-3). As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade dos autores e não necessariamente refletem a visão da FAPESP
REFERÊNCIAS:
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PARANAÍBA MAIS. Veja os fatores que explicam chuvas e estragos na Zona da Mata. Disponível em: https://paranaibamais.com.br/meio-ambiente/veja-os-fatores-que-explicam-chuvas-e-estragos-na-zona-da-mata/. Acesso em: 30 mar. 2026.
RODRIGUES, M. Falta de manutenção e falhas de projeto impediram o sistema de contenção de cheias de proteger Porto Alegre. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo, ed. 341, jul. 2024. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/. Acesso em: 30 mar. 2026.
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