Os dados da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – a PNAD Contínua, divulgados recentemente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), revelam  mudanças na maneira como moramos no Brasil. Estamos diante de uma transformação silenciosa, mas célere, no mercado imobiliário residencial, especialmente nas grandes cidades. O dado que mais salta aos olhos é o aumento expressivo da moradia de aluguel: hoje, quase 24% dos 80 milhões de domicílios no país são alugados. Em cidades como Palmas e Florianópolis, essa realidade ultrapassa os 40%. No ano passado, 23,8% dos domicílios do país — o equivalente a 18,9 milhões de moradias — eram alugados. Em 2016, essa proporção era de 18,4% (12,3 milhões). Na prática, isso significa que o número de imóveis alugados cresceu 54,1% em nove anos.

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É preciso olhar para esses números com um viés crítico. Historicamente, o Brasil se vendeu como o país da “casa própria”, um índice que já chegou a 80% e que, nos dados atuais, vem minguando para pouco mais de 60%. Mas atenção: esse “próprio” do IBGE sempre precisou de aspas. Ele inclui a moradia em favelas, ocupações e autoconstruções que, embora pertençam às famílias que as ergueram, muitas vezes não possuem registro formal de propriedade. O que vemos agora é que mesmo essa alternativa de “se virar” para construir o próprio teto está sendo inviabilizada.

Por que o aluguel cresce tanto enquanto o acesso à propriedade diminui? A resposta está na financeirização da moradia. Houve um aumento vertiginoso no valor dos terrenos e dos imóveis, uma alta desproporcionalmente maior do que o rendimento das famílias brasileiras. Isso significa que comprar um imóvel, seja no mercado formal ou informal, tornou-se um objetivo inalcançável para a maioria. 

O que os dados da PNAD também podem indicar é uma concentração cada vez maior da propriedade. A moradia tem cada vez mais assumido o papel de  um ativo financeiro. O imóvel não serve mais prioritariamente para morar, mas para render lucros a investidores no curto e médio prazo ou simplesmente para acumular ativos. 

Enquanto a moradia for tratada como  reserva de valor e fonte de rentabilidade  para o capital, o direito à cidade continuará sendo um privilégio de poucos, restando à maioria a insegurança do aluguel no setor privado em uma economia de mercado cada vez mais excludente.