
Estou aqui com mais de 10 mil arquitetas e arquitetos em Barcelona, onde participo do Congresso da União Internacional de Arquitetos , que tem como chamada a “Arquitetura para um planeta em transição”.
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O que mais me impressiona é que, mesmo em uma cidade como Barcelona — que é uma espécie de “cidade rainha do design e celebração da arquitetura” — o clima é de um questionamento radical dos paradigmas que orientaram a arquitetura e muitos desafios para um futuro incerto. O calor sufocante que está aqui é apenas uma das evidências da crise climática, que por sua vez tem diretamente a ver com a forma predominante de ocupação do território – orientada por um antropocentrismo arrogante que, por exemplo, afirma que a natureza existe para servir-nos, para dela extrairmos uma quantidade infinita de materiais que alimentam o fabrico infinito de artefatos construídos. Se hoje esta visão não tem mais como se sustentar, como repensá-la? A sensação é que engatinhamos, mas não estamos parados. Aqui nas mesas de debate a convocação é para “prototipar” o futuro.
Quero compartilhar com vocês três (dos seis) eixos que orientaram os eventos do Congresso: becoming circular, becoming interdependent, becoming more than human (Tornando-se circular, Tornando-se interdependente, Tornando-se mais que humano):
O desafio do pós-concreto
Precisamos falar de circularidade com seriedade. Se pararmos para pensar que “9% de todas as emissões globais vêm de cimento”, além de parar de construir desta forma, o que fazer com os resíduos que esta era produziu(e produz)? As toneladas de ruínas? Em uma das plenárias arquiteturas feitas com os restos de construções, restos de tecidos e outros resíduos foram apresentadas.
Chega de “eu sozinho, competindo com o resto do mundo”
A ideia é “romper com essa ideia absolutamente individualista” de que o profissional ou o cidadão atua sozinho. E centenas de processos colaborativos transdisciplinares voltados para um “convívio social e coletivo” foram narrados.
Natureza não é o oposto de cultura
Por fim, o eixo More than Human (Mais que Humano) nos convoca a romper com a oposição entre cultura e natureza, tão fundadora da modernidade. A natureza é sujeito, é agente e é preciso navegar com ela.
O que estamos vendo aqui é que os desafios que temos pela frente — não só em função ao das mudanças climáticas mas também pelo combo de crises – política, civilizacional – indicam que é hora de desenhar a nossa própria sobrevivência. Aqui, nesta Europa que inventou a modernidade e a impôs sobre o planeta, que desenhou esta forma e transformou – pela força da ocupação territorial e cultural – em paradigma global, agora decreta que esta chegou ao fim. Não por acaso ao longo dos dias ouvi mais de uma vez nas plenárias, mesas e corredores que o futuro é ancestral.

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