Fonte: Bruno Santos/Folhapress

É impossível caminhar pelas ruas de São Paulo sem ver o trabalho invisível que mantém essa metrópole minimamente organizada, mas o que aconteceu recentemente é um grito que não dá mais para ignorar. A morte trágica do gari Diego Rafael da Silva, um jovem de 19 anos atropelado enquanto trabalhava na Barra Funda, e a paralisação que se seguiu por seus colegas em protesto, são os sintomas mais cruéis de uma cidade que trata o descarte como mercadoria e as pessoas que lidam com ele com indiferença.

Ameaça de despejo da Copamare

E o exemplo maior desse descaso com quem de fato cuida da cidade é o que está acontecendo com a Coopamare. Imagina só: estamos falando da primeira cooperativa de catadores do país, um símbolo de organização que está há 37 anos embaixo do viaduto João Moura, em Pinheiros. Pois agora, a subprefeitura resolveu que quer tirar eles de lá, ameaçando um trabalho que é referência mundial de dignidade e reciclagem. Em vez de a prefeitura investir pesado para transformar o catador que está sozinho na rua, puxando uma carroça, em um trabalhador cooperado com estrutura, ela tenta despejar quem já conseguiu se organizar.

Em vez de a prefeitura investir pesado para transformar o catador que está sozinho na rua em um trabalhador cooperado, ela ignora o papel central dessas organizações. Como ficou evidente nos debates da audiência pública sobre o novo Plano de Resíduos, as cooperativas são a espinha dorsal do sistema, processando quase 30% de tudo o que é reciclado no fluxo oficial da cidade. O mais grave é que elas realizam esse trabalho sem receber nenhuma remuneração direta pelo serviço ambiental essencial que prestam, dependendo apenas da venda do material.

A gente precisa entender que são esses catadores e garis quem garante a salubridade pública, muitas vezes em condições absolutamente precárias. O que a gente vê são trabalhadores puxando carroças de 500, 600 kg, desenvolvendo hérnias e problemas articulares gravíssimos. E quando um gari morre atropelado, fica nítido que a segurança viária para quem limpa a nossa sujeira simplesmente não existe.

Reciclagem estagnada e desigualdade

Enquanto isso, a gestão de resíduos da cidade parece “engatinhar”. São Paulo recicla pífios 2,85% de tudo o que coleta. É muito pouco! A gente vive sob um teto de estagnação que não quebra porque o modelo é feito para enterrar lixo — e dinheiro — em aterros que já estão sufocados, como o CTL Leste que deve fechar agora em 2026.

E tem mais: essa eficiência mínima não é igual para todo mundo. É o que a gente chama de injustiça ambiental. Enquanto em bairros como Vila Mariana e Pinheiros a reciclagem passa dos 10% ou 6%, nas periferias como Itaim Paulista e Perus esse índice mal chega a 0,5%. O serviço público funciona onde o padrão de consumo é alto e a infraestrutura já está consolidada, deixando as áreas mais vulneráveis à própria sorte, com pontos viciados de descarte que viram focos de dengue e outras doenças.

O que está em jogo aqui não é só “gestão de resíduos”, é o direito à cidade e à vida. Não dá para aceitar um plano que fale em tecnologia de ponta ou incineração enquanto ignora que as cooperativas processam quase 30% do que é reciclado no sistema oficial sem receber remuneração direta pelo serviço ambiental que prestam. Precisamos parar de tratar o lixo apenas como um contrato bilionário de logística e começar a enxergá-lo como uma oportunidade de inclusão social e proteção à vida de quem está na ponta. Sem o reconhecimento e a proteção dos nossos garis e catadores, São Paulo continuará sendo uma cidade que se limpa sujando as mãos com a precariedade alheia.