Esboço 3D do projeto: https://esplanadaliberdade.com.br

Acaba de ser assinado o contrato de concessão para a construção da chamada Esplanada Liberdade, no centro de São Paulo. Trata-se de um projeto, idealizado há cerca de 30 anos, que consiste em criar uma laje sobre a Radial Leste-Oeste, conectando quatro viadutos no bairro da Liberdade: Guilherme de Almeida, Mie Ken, Cidade de Osaka e Shuhei Uetsuka.

Ouça também: “Cidade para todos – Rádio USP”

À primeira vista, a ideia de costurar uma cicatriz urbana como a Radial Leste parece positiva. No entanto, quando olhamos os termos dessa Parceria Público-Privada (PPP), o que vemos é a reiteração de um modelo que privilegia a exploração econômica em detrimento do uso social e público. O projeto, que contará com 150 milhões de reais de investimento público, será gerido por um consórcio privado de empreiteiras por 30 anos. A remuneração desse ente privado virá da exploração comercial, incluindo a previsão de mais um shopping center com seis andares em plena laje.

Mais um shopping?

A pergunta que fica é: para que precisamos de mais um shopping center em São Paulo? Qual o sentido de ampliar o espaço público se ele nasce condicionado à rentabilidade? O que temos visto em outros pontos da cidade, como no Parque Ibirapuera e no Parque Villa-Lobos, é uma captura sistemática do espaço comum. Áreas que deveriam ser livres estão sendo ocupadas por eventos privados, cercadinhos e naming rights. O caso do Vale do Anhangabaú é emblemático: um escândalo onde o espaço fica frequentemente vedado ao uso pela população para explorar eventos comerciais.

O apagamento da população negra e sua história

Celebração de missa campal em frente à Capela Nossa Srª. dos Aflitos – na Liberdade | Foto: Donizete Vieira

No caso específico da Liberdade, há um agravante: o apagamento da memória da população negra no bairro. O projeto tem sido fortemente contestado por movimentos sociais porque reforça uma “japonesização” do bairro, ignorando que a história e a cultura negra são fundamentais para aquele território, o próprio nome do bairro vem dessa história. Ao deixar a gestão do espaço — e até de um futuro memorial previsto no projeto — nas mãos de uma empresa privada, permitimos que esta seja uma decisão dependente de cálculos de rentabilidade e não valores coletivos,  definindo assim qual história merece ser contada.

Infelizmente, a sanha privatista não para por aí. Atualmente, a prefeitura propõe também a privatização da Praça Roosevelt e sua conexão com o Parque Augusta. Estamos transformando a cidade em um conjunto de fragmentos geridos pela lógica do mercado, onde o cidadão só é bem-vindo se for consumidor. 

O que São Paulo realmente precisa são de espaços públicos, comuns e livres de exploração econômica. A cidade deve ser um lugar de encontro e de liberdade, e não uma sucessão de esplanadas desenhadas para sustentar novos centros de compra.