Mercado Ver o Peso Belém -
Mercado Ver o Peso em Belém. Foto: Jader Paes
Apesar de R$ 7 bilhões para infraestrutura, a metrópole fluvial com 42 ilhas priorizou obras rodoviárias como duplicação de avenidas e viadutos, repetindo um modelo carbocêntrico que o mega evento deveria desafiar

A expectativa em torno de Belém sediar a COP30 era enorme. O evento representava a oportunidade ímpar de deslocar o centro do debate sobre os modos de produção do planeta do hemisfério norte para a periferia do capitalismo, a partir da Amazônia. A Conferência das Partes (COP30) poderia confrontar o modelo carbocêntrico hegemônico, alçando perspectivas de futuro baseadas nas florestas, nas águas e na cultura sociopolítica da “florestania”, nas palavras de Ailton Krenak. No entanto, a forma como a cidade se preparou para o mega evento — programado entre os dias 10 e 21 de novembro — revela uma frustrante repetição dos velhos paradigmas.

Apesar do investimento robusto de R$ 7 bilhões na cidade, aplicados em projetos de saneamento e mobilidade, a análise do que foi concretizado aponta para um modelo que é “mais do mesmo”.

O modelo rodoviário em uma metrópole fluvial

De acordo com um estudo conduzido pela pesquisadora Olga Lúcia Castreghini e Thiago Veloso, da Universidade Federal do Pará (UFPA), a maior parte dos investimentos estruturais seguiu um padrão hegemônico que prioriza soluções  que não inovam do ponto de vista dos efeitos sobre o clima. Desse montante de R$ 7 bilhões, mais de 2 bilhões foram direcionados à mobilidade. Contudo, a aplicação desses recursos concentrou-se majoritariamente na duplicação de avenidas, rodovias e viadutos. Embora tenha havido melhorias no sistema de ônibus (BRT), o transporte continua predominantemente “sobre pneus”.

Esse foco no rodoviarismo é particularmente contraditório para Belém, que é uma metrópole fluvial com 42 ilhas e uma relação histórica com as águas. O modal hidroviário, apesar de seu potencial, recebeu investimentos “absolutamente mínimos”.

As soluções adotadas, como o asfaltamento de ruas e a construção de avenidas e viadutos, demonstram a persistência de um traço rodoviarista. Tais obras estimulam o uso de carros, indo “longe daquilo que imaginávamos que poderia incorporar elementos da floresta e da vida desse lugar do país”.

A inércia sistêmica e a “cidade de exceção”

Essa repetição de modelos não é vista como um problema exclusivo desta conjuntura específica, deste momento e desta preparação para o megaevento. Já é amplamente estabelecido pela literatura que  o megaevento se transforma em oportunidade para criar uma  “cidade de exceção”, passando por cima de regramentos para “fazer logo e fazer muito”. E assim, abrem-se as gavetas do mais do mesmo: mais do mesmo do ponto de vista de projetos, da técnica, mais do mesmo do ponto de vista dos métodos de gestão. 

A inércia é sistêmica: o sistema de transformação da infraestrutura, incluindo a área técnica e as empresas de engenharia, está “pronto para fazer exatamente o que sempre se fez”. Transformar essa realidade na direção de um novo paradigma é uma “tarefa hercúlea”, que infelizmente não foi cumprida na preparação para a COP30 em Belém.

Apesar disso, investimentos em saneamento básico e macrodrenagem de canais estão sendo realizados. Embora essas obras não sejam de rápida conclusão e as soluções sejam complexas devido às características planas e fluviais da cidade, a COP serviu  como um pretexto  para que recursos sejam aplicados, o que representa um ganho fundamental para a qualidade de vida e saúde da população.

Uma tarefa a ser cumprida e as Zonas Amarelas

Em meio à repetição do modelo, um movimento social promissor surge. Em contraposição às Zonas Azul (negociações diplomáticas) e Verde (eventos do governo anfitrião), grupos de jovens, mulheres e ativistas das “baixadas” (periferias e favelas de Belém) estão propondo a criação de “Yellow Zones” (Zonas Amarelas).

Este movimento da sociedade civil busca discutir de forma séria como as mudanças climáticas afetam as áreas mais pobres, nas periferias, e propõe que essas zonas se tornem locais para debater os problemas climáticos onde eles de fato acontecem. Esse é um movimento inovador,  e que pode alimentar imaginários políticos e territoriais novos, apontando para o futuro. A COP30, sediada na Amazônia, oferece uma oportunidade que transcende a infraestrutura e os negócios. É o momento de o mundo e o Brasil “não mais olharem a Amazônia como um folclore”, mas sim como um território de disputas, carências (como a falta de saneamento) e, principalmente, de potencialidades e modos de vida que exigem uma nova perspectiva de engenharia , arquitetura e urbanismo. A frustração com o “mais do mesmo” na preparação física da cidade, no entanto, torna a tarefa de alcançar uma transformação real em Belém uma luta contínua e desafiadora.

Lançamento Revista USP 147


No artigo “Os riscos do risco: mudanças climáticas, remoções e o direito à moradia”, que compõe a edição 147 do “Dossiê USP e a COP 30”, também faço uma leitura crítica dos conceitos, métodos e processos de fazer cidade, especialmente após tragédias coletivas como as chuvas intensas no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024. A obra aborda as dimensões que orientam a crítica aos marcos atuais de reconstrução, focando na relação entre o planejamento urbano, a multidimensionalidade do risco e a economia política do risco, com ênfase nas problemáticas das remoções forçadas e do direito à moradia em territórios populares. Este texto resulta de uma palestra proferida em Porto Alegre, em junho de 2025, no seminário “Direito à Cidade e Sustentabilidade Urbano-Industrial”.