Zohran Mamdani, eleito prefeito em Nova York, em um de atras de um balcão de um armazem sorrindo.
Zohran Mamdani em uma imagen de sua campanha

Embora setores da imprensa tenham destacado a importância da vitória de Zohran Mamdani em Nova York como marca de oposição ao trumpismo e sua relevância como renovação política do Partido Democrata, com a emergência de lideranças ligadas à DSA (Democrat Socialists for America) enfrentarndo a máquina tradicional do partido, o significado desta vitória transcende – e muito – a dimensão política partidária estadunidense.

Mamdani em seu discurso de posse afirma começar a derrotar Trump na “cidade que o criou”. Aqui Zohan se refere a Trump, grande incorporador imobiliário, arauto do complexo imobiliário financeiro, que representa um movimento global e planetário de colonização e ocupação do espaço e infraestruturas da cidade pelas finanças globais. Este movimento tem gerado efeitos muito perversos nas cidades, resultando na perda da possibilidade de viver na cidade para as pessoas, sobretudo para os não brancos e pobres.

Agenda de direito à cidade

Sua campanha foi totalmente focada na agenda pelo direito à cidade, rompendo com o padrão hegemônico de politica urbana, que defende uma administração municipal à serviço da promoção de negócios e oferta de oportunidades para oferta de ativos para o capital financeiro. O efeito dessa lógica – que transforma espaços construídos, infraestruturas e serviços urbanos em ativos – é a dificuldade cada vez maior das pessoas de ter acesso a moradia digna, a poder circular e usar os serviços da cidade… De forma que cada vez mais a cidade – cara – vai ficando inacessível e expulsando seus moradores.

A vitória de Mamdani é uma adesão clara e direta a uma agenda comprometida exatamente com esse direito de viver na cidade. Os pilares de sua plataforma, que diferenciam a “cidade real” da “cidade dos negócios e dos turistas”, incluem:

  • A centralidade da habitação: uma interferência substancial no mercado de habitação, propondo o congelamento dos aluguéis, para a parcela do estoque habitacional de Nova York (cerca de 1/3) que possui o regime de “aluguel protegido ou estabilizado”. Também defende a promoção de habitação social “de verdade”, combatendo aquilo que chamamos aqui no Brasil de “fake HIS” – habitações de interesse social que, na prática, não chegam aos mais pobres. A plataforma oficial de Mamdani lista a moradia como um de seus principais pilares.
  • Transporte rápido e gratuito: implementação de tarifa zero e melhorias substantivas no sistema de transporte por ônibus.
  • Primeira infância e educação: uma oferta significativamente maior de creches no sistema público, combatendo o problema do enorme custo das creches privadas
  • Alimentação acessível: prevê a criação de uma rede de mercados e quitandas de propriedade da própria cidade, visando garantir comida acessível e de verdade para a população.

Uma cidade que podemos pagar

Os efeitos perversos da cidade como ativo financeiro não está presente apenas em Nova York; pelo contrário: ela se constituiu nas últimas décadas como uma espécie de consenso global na política urbana e está presente em um enorme conjunto das grandes cidades, o que inclui, as grandes cidades brasileiras. A eleição de Mamdani com o mote “a city we can afford” (uma cidade que podemos pagar) sinaliza, portanto, que a luta pelo direito à cidade é a resposta necessária e urgente para combater este modelo. Se Trump (e a própria Nova York) são sínteses deste modelo, sua derrota ali mesmo em seu epicentro tem uma importância global.