
Nesta edição o trabalho apresentado por Lara Giacomini, bolsista de Iniciação Científica do projeto temático Observatório de Remoções, foi selecionado para a etapa internacional do simpósio
Pesquisadores que constituem a equipe do LabCidade, apresentaram resultados de seus trabalhos na participação do 33º SIICUSP (Simpósio Internacional de Iniciação Científica e Tecnológica da USP), evento anual realizado pela Universidade de São Paulo (USP) que tem como objetivo a divulgação dos resultados de projetos de pesquisa científica e contribuir para a formação acadêmica e profissional dos participantes. Nesta edição o trabalho da bolsista de Iniciação Científica Lara Giacomini, se classificou para a fase internacional do Simpósio.
Risco urbanístico: Abordagens Teóricas e Metodológicas para Mapeamento de Remoções na Região Metropolitana de São Paulo

A pesquisa de Lara Giacomini é financiada pela FAPESP no âmbito da Iniciação Científica na FAU/USP e integra o projeto temático mais amplo “Observatório de Remoções: dimensões interdisciplinares do risco em tempos de mudanças climáticas e crise habitacional”. O trabalho discute o conceito de risco urbanístico e metodologias para mapeamento e quantificação de remoções e deslocamentos forçados na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).
O Projeto Temático ao qual a bolsista se vincula busca enfrentar os limites e desafios teóricos e metodológicos para poder identificar, dimensionar e caracterizar os territórios e grupos ameaçados de remoção por se encontrarem em “risco”; assim como desenvolver conceitualmente o “risco”, cuja economia política necessita ser compreendida em tempos de mudança climática e crise habitacional. Para isso, elege as dimensões interdisciplinares do “risco” como categoria articuladora de campos de saber e de intervenção territorial, sendo elas econômicas, ambientais, jurídicas, sociais-interessecionais e urbanísticas – sendo esta o objeto do trabalho de Lara.
Buscando investigar indicadores relacionados os efeitos indiretos do risco urbanístico, que podem indicar processos de transformação socioespacial e deslocamentos forçados diante de grandes intervenções públicas e alterações das dinâmicas de mercado, foi desenvolvido um estudo experimental focado nas Linhas 4-Amarela e na futura Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, utilizando a técnica de diferença em diferenças (DiD) para averiguar se a expansão do metrô, como propulsora da valorização imobiliária no entorno dessas linhas, atua como vetor da concentração de investimentos que sustentam o território de exclusividade branca. A análise sugere que, no entorno da Linha 4-Amarela, houve um processo consistente de embranquecimento entre 2010 e 2022, enquanto a Linha 6-Laranja apresenta dinâmicas contrastantes: ao sul, em áreas já valorizadas e alvo de investimentos imobiliários, verifica-se uma diminuição dos grupos negros e aumento da população branca; ao norte, em bairros como Freguesia do Ó e Brasilândia, nota-se maior permanência negra, ainda que sob pressão crescente de valorização futura. A variação do perfil racial, assim, pode ser vista como um importante indicador de deslocamentos associados ao risco urbanístico e evidencia a articulação entre racismo estrutural e produção do espaço.
Critérios de Seleção Internacional
Para que um trabalho seja selecionado para a Etapa Internacional, ele deve ter sido indicado para publicação nos anais e ter como autor um estudante de Graduação da USP e/ou orientador docente USP. A Comissão de Pesquisa e Inovação da Unidade seleciona até 10% dos trabalhos apresentados para essa fase. Os trabalhos selecionados para a Etapa Internacional deverão ter seus materiais de apresentação preparados em inglês.
Remoções e deslocamentos forçados em meio a financeirização do urbano e reestruturação do Estado
O trabalho de Mateus Henrique, que também participou desta edição, explora o levantamento de remoções e despejos em São Paulo, articulando métodos quantitativos e qualitativos, incluindo incursões etnográficas em áreas sob intervenção do Programa Mananciais na Zona Sul.

A política pública voltada à habitação, antes centrada na urbanização e permanência das famílias em seus bairros, vem sendo progressivamente substituída por mecanismos financeiros, como o auxílio-aluguel. Criado como medida emergencial, o benefício passou a funcionar, em muitos casos, como solução definitiva — o que resulta em precarização habitacional e fragmentação comunitária. Entre 2021 e 2024, mais de 27 mil famílias receberam auxílio-aluguel apenas na região da Capela do Socorro, segundo levantamentos utilizados na pesquisa.
Para além disso, Em 2021, o Programa Mananciais tornou-se uma Secretaria Executiva interna da Secretaria de Habitação(SEHAB) do município de São Paulo, como permanece até hoje. O estudo também evidencia que este é um território onde questões ambientais, habitação popular e políticas de urbanização se encontram, mostrando tanto os esforços públicos de intervenção quanto as tensões e desafios associados à permanência das populações que vivem nessa região.
A pesquisa de Mateus Martins analisou como as soluções habitacionais mobilizadas (como auxílio-aluguel e indenização) muitas vezes continua a perpetuar a precariedade e o risco. Além disso, a falta de pacompanhamento na maneira como são empregados o auxílio-aluguel ou a indenização, havendo famílias que não possuem condições de complementar tais políticas ou acessar crédito e que incorrem na ocupação de outras áreas precárias, muitas vezes novamente de fragilidade ambiental.
Dinâmicas territoriais transescalares em uma pequena cidade do Vale do Paraíba: disputa de facções em um conjunto habitacional do MCMV
A pesquisa de Giovanna de Aquino Linica, aborda um conjunto habitacional Minha Casa, MInha Vida (MCMV) no Vale do Paraíba que evidenciou como a presença do crime organizado está ligada à produção de espaço periférico marcado por vulnerabilidades e omissões do poder público. A localização estratégica do conjunto, próxima a rodovias que conectam São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o posiciona como um ponto logístico relevante para redes criminosas. O estudo mostrou que a implantação do empreendimento em área afastada, sem infraestrutura e serviços essenciais, criou um vazio institucional rapidamente ocupado pelas facções, consolidando formas paralelas de regulação social. A pesquisa aponta que, ao contrário do observado na capital paulista, a atuação do PCC nesse contexto interiorano predomina uma dinâmica de disputa acirrada com outras facções, impondo normas coercitivas e controlando o cotidiano dos moradores, revelando a capacidade adaptativa da facção a contextos locais.
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