Imagem que ilustra a narrativa apresentada no texto:Foto de cartaz de um empreendimento Imobiliário com os seguintes dizeres: "HÔMADA" "ESTO NO ES UN DESARROLLO." "ES UNA OPORTUNIDAD FINACIERA DISFRAZADA DE LADRILLOS." www.homada.com.mx
Foto tirada em Guadalajara – Tradução: HÔMADA ISTO NÃO É UM EMPREENDIMENTO. É UMA OPORTUNIDADE FINANCEIRA DISFARÇADA DE TIJOLOS

Acabo de chegar de  Guadalajara, a segunda maior cidade do México, onde pude observar de perto um fenômeno que, embora com especificidades , se parece muito com o que se passa em São Paulo .

Casas sem gente, gente sem casa… Unidades “tipo” residenciais em áreas centrais e consolidadas de 20 – 30 metros quadrados em torres de apartamentos e “plantations” de casas a  perder de vista sem urbanidade nem cidade em periferias distantes .  Nos dois casos, uma produção feita pelo mercado privado, em que a verticalização  – 400 edifícios de “moradia”  vertical construídos através de exceções às regras de planejamento, a maioria desabitados –  vai  transformando a paisagem de bairros centrais  de Guadalajara e  vai  expandindo as fronteiras nas periferias.

A Chernobyl mexicana

Na região metropolitana de Guadalajara, visitei  a extrema periferia de Tlajomulco de Zuñiga. Ali um programa público subsidiado pelo governo central, através do INFONAVIT construiu mais de 20 milhões de unidades  em todo país em 20 ANOS (2000-2020)  a grande maioria em frentes de expansão sobre zonas rurais, das quais estima-se hoje que quase 1 milhão de casas estejam vazias, abandonadas ou ocupadas irregularmente. Tlajomulco é um dos municípios do país que mais apresenta situações deste tipo – são mais de 77 mil casas “problemas” entre vazias, abandonadas, depredadas ou cujos proprietários pararam de pagar. Ali pude visitar Lomas del Mirador, um conjunto habitacional construído em 2013 a 30 km de Guadalajara, que sequer se terminou de construir e entregar toda as obras. Este, apelidado de “Chernobyl” se converteu numa espécie de símbolo dos fracassos de uma política que prometeu a casa própria para todos, sem urbanidade nem condições de acesso a cidade. Perguntei as razões por que o empreendimento embora totalmente vendido se encontrava parcialmente vazio. As razões são muitas: desde as dificuldades concretas enfrentadas pelas pessoas que ali foram habitar, até casos de pessoas que compraram “para investir” sem intenção de morar como alternativa para aumento de renda futura através do aluguel ou da valorização do local. 

É pra morar ou para investir?

“Para investir” parece ter se tornado a palavra chave do mercado imobiliário. Um estudo realizado por um pesquisador a partir das contas de luz, identificou vacâncias de mais de 50% das unidades em mais de um dos edifícios  verticais nas áreas mais centrais de Guadalajara e do município vizinho Zapopan.

É impossível observar esse fenômeno sem identificar suas similaridades com o que acontece em São Paulo, que não podem ser consideradas mera coincidência. Nós estamos vendo, através do exemplo mexicano, a materialização dos mesmos mecanismos que identificamos aqui em São Paulo, uma produção massiva dos chamados empreendimentos de estúdio e chamamos de “fake HIS”, que hoje são objeto de uma CPI que demonstra como o incentivo público tem alavancado projetos imobiliários que, em essência, funcionam como ativos financeiros. Tais unidades são, primariamente, investimentos de grandes, médios e pequenos investidores, e não são construídas como lugares para quem hoje não tem casa para viver.  Consequentemente, elas falham em oferecer alternativas de moradia para a população que mais necessita.

As consequências deste processo é uma crise de moradia de grandes proporções. No caso de Guadalajara, o impacto é quantificável e devastador: quase 30% do estoque residencial da cidade está vazio e subutilizado. Nas grandes cidades mexicanas ou aqui o espaço construído, em vez de garantir o direito fundamental à habitação, tornou-se um veículo de acumulação de capital. O grande desafio das políticas urbanas atuais é reverter essa lógica perversa e garantir que a moradia volte a cumprir sua função primordial.