
Acompanhando o que está acontecendo lá no Congresso, parece que a comissão especial que se constituiu para discutir o fim da escala 6×1 deve entregar o relatório final já na semana que vem. Isso abre uma chance real de votarmos esse projeto que reduz a jornada para o modelo 5×2 — ou seja, a obrigatoriedade de dois dias de descanso para todos. Essa ideia de reduzir a jornada sem cortar o salário ganhou um apoio popular imenso porque toca num ponto central: precisamos de “vida além do trabalho”.
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Mas o que é que significa, na prática, essa “vida além do trabalho”? Se pararmos para observar, o mundo do trabalho hoje está produzindo uma epidemia de burnout, estresse e adoecimento. E não pensem que isso é culpa só do que acontece dentro da empresa. Nas grandes cidades, como São Paulo, esse esgotamento está diretamente ligado ao estresse de viver na cidade. É um desgaste físico brutal que passa, principalmente, mas não somente, pelo campo da mobilidade.
O problema é que as nossas cidades não foram pensadas para “estarmos” nelas; elas foram estruturadas exclusivamente pelo mundo do trabalho. Se tomarmos nossos modelos de transporte, sistema viário e para nosso sistema de ônibus, fica evidente que este foi desenhado na lógica “casa-trabalho”, como se não existisse vida fora disso. E essa lógica é ainda mais perversa se considerarmos que a maior parte dos trabalhadores é empurrada para as periferias mais distantes — um modelo que a nossa própria política de habitação popular acaba reforçando — o que condena essas pessoas a jornadas intermináveis dentro de ônibus totalmente inadequados para esse percurso.
Então, o desafio que temos agora no planejamento urbano é enorme. Não se trata apenas de deixar o ônibus “mais rápido” para chegar ao serviço. Precisamos pensar que a cidade e o sistema de transporte têm que funcionar para o desfrute, para o lazer. Por exemplo: por que não ter uma oferta boa de transporte fora dos horários de pico? Por que não temos calçadas e sistemas de circulação melhores dentro dos bairros?
Precisamos, urgentemente, de uma estrutura urbana que funcione como um espaço de acolhimento e relaxamento, priorizando parques e áreas de convivência em vez de focar só nos elementos funcionais e produtivos. A luta pelo fim da jornada 6×1 é, sim, uma pauta trabalhista, mas ela também coloca na mesa a urgência de uma cidade organizada para a vida.

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