
O Carnaval de 2026 na cidade de São Paulo mostrou de forma clara a tensão crescente entre os blocos, auto-organizados, irreverentes e territorializados e o megaevento corporativo voltado ao lucro.
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O carnaval paulistano de rua renasceu de forma orgânica no século XXI, enraizado nos bairros e marcado pela auto-organização e ocupação transgressora do espaço público. No entanto este movimento foi crescentemente sendo incorporado por outra lógica, aquela que subordina a cultura à lógica empresarial do lucro. Quando a prioridade deixa de ser a ocupação da cidade pelos corpos em festa e passa a ser o dinheiro das corporações e patrocinadores, o resultado é o esvaziamento do protagonismo dos blocos e a deterioração da experiência urbana.
Os problemas logísticos na Rua da Consolação, onde se tentou abrigar 1,5 milhão de pessoas em um espaço confinado, são reflexos diretos dessa visão de entretenimento de massa que ignora a escala humana. A instalação de tapumes na Praça Roosevelt, que impediu o escoamento do público e transformou a via em uma armadilha, ilustra a falta de diálogo com a comunidade e com os promotores dos blocos. Em vez de apoiar as iniciativas descentralizadas, a prefeitura optou por um modelo centralizado que, paradoxalmente, “mata a festa” ao tentar controlá-la para fins comerciais.
Essa gestão temerária se manifestou também na precariedade dos serviços básicos e na opacidade administrativa. A redução de 37% na oferta de banheiros químicos, o apoio pífio aos bloquinhos (só 100 apoios de R$ 25 mil cada um) se comparado aos milhões operados pelos megablocos, revela as opções da SPJ̌Turis, estatal responsável pela organização de eventos na cidade.
Por fim, a resposta do Estado aos conflitos gerados por sua própria desorganização foi a violência. Episódios de agressão policial no Ibirapuera e o uso de gás lacrimogêneo e spray de pimenta pela GCM contra blocos no Butantã mostram um autoritarismo que pune o folião pela falha do organizador.
Para 2027, o caminho tem que ser o inverso: é preciso ansiar por um carnaval totalmente descentralizado e tranquilo, que dialogue com os territórios e apoie as iniciativas populares, em vez de tratá-las como meros ativos de um balanço financeiro. A rua deve voltar a ser o espaço da folia, e não um balcão de negócios cercado por grades e truculência.
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